Mudanças na demanda, custos em alta e gargalos operacionais colocam o modelo de companhias aéreas de baixo custo em xeque, com 2026 visto como ano decisivo para recuperação de margens
O debate sobre o futuro das low-cost ganhou novo fôlego com uma nota do Morgan Stanley. O banco indica que o modelo de companhias aéreas de baixo custo enfrenta mudanças estruturais que vão além da pandemia.
Para os analistas, a combinação de custos inflacionados, redes menos flexíveis e o avanço das tradicionais em hubs estratégicos mudou o jogo competitivo no setor aéreo.
As conclusões apontam um ponto de inflexão, em que ajustes estratégicos já em curso serão testados nos resultados, segundo o Investing.com.
Demanda e fidelidade mudam o jogo
O relatório aponta uma alteração profunda no comportamento do passageiro. A busca por conforto, status e benefícios da fidelidade ganhou peso, reduzindo o apelo do menor preço puro.
Nesse contexto, o modelo de companhias aéreas de baixo custo parece menos suficiente por si só. Agora, a proposta de valor passa por ajustes de serviço e experiência.
O texto traz um trecho que sintetiza a guinada do consumo, em linha com a disputa por viajantes frequentes e corporativos.
“O Morgan Stanley disse que as preferências dos consumidores mudaram para experiências premium e benefícios de fidelidade, reduzindo o apelo da abordagem de ‘preço mais baixo a qualquer custo’ que definiu o modelo de baixo custo durante grande parte da última década.”
Essa leitura ajuda a explicar por que companhias tradicionais recuperaram espaço após o choque da pandemia, apoiadas por programas de milhas e cabines diferenciadas.
Para as low-cost, a pressão aparece na necessidade de evoluir a oferta, sem diluir a disciplina de custos que sempre foi o seu diferencial competitivo.
Custos e gargalos comprimem margens
O levantamento sugere que a inflação pós-pandemia atingiu com mais força as low-cost e ultra low-cost, com impacto direto em margens e capacidade de competir em hubs.
Em paralelo, restrições sistêmicas, como falta de pilotos, atrasos de aeronaves e limites de portões, prejudicam modelos que dependem de uso intenso de frota.
Os analistas destacam que nem todos os efeitos são transitórios. Muitos refletem uma nova configuração operacional e regulatória nos principais mercados.
“Restrições estruturais, incluindo disponibilidade de pilotos e aeronaves, limitações de controle de tráfego aéreo e capacidade de portões de aeroportos, afetaram desproporcionalmente os modelos que dependem de crescimento rápido e alta utilização de aeronaves.”
Em hubs dominados por companhias de rede, taxas e logística ficaram menos favoráveis às entrantes, o que empurra as low-cost para rotas regionais de menor densidade.
Com isso, a vantagem de custo, que por anos sustentou tarifas agressivas, aparece comprimida, ou mesmo invertida, em alguns mercados-chave.
“Como resultado, a vantagem estrutural de custo que antes definia o segmento de baixo custo diminuiu ou, em alguns casos, se inverteu, segundo a corretora.”
O Morgan Stanley também compara margens no horizonte de 2025 com a base de 2019, sinalizando erosão mais funda nas low-cost do que nas tradicionais.
“Nas estimativas para 2025 em comparação com as médias de 2019, os lucros antes de juros e impostos para companhias de baixo custo e ultra-baixo custo permaneceram significativamente mais fracos do que para companhias aéreas tradicionais, refletindo maior inflação de custos unitários e erosão mais profunda das margens.”
A avaliação reforça a tese de reprecificação setorial. Modelos de rede, com mix de receita mais diversificado, parecem menos expostos ao choque de custos.
“O Morgan Stanley disse que a diferença de margem entre as companhias de baixo custo e seus níveis históricos é maior do que a de seus pares tradicionais, destacando a extensão da reestruturação em curso.”
Reação das low-cost e caminhos possíveis
Pressionadas, as empresas de baixo custo já movem peças. A meta é recuperar receita por passageiro, ampliar fidelidade e diminuir a sensibilidade a preço.
Segundo a nota, Southwest, JetBlue, Frontier e Spirit, que entrou com pedido de proteção do Capítulo 11, adotam medidas para reequilibrar o modelo.
Entre as frentes, estão assentos premium, tarifas agrupadas, expansão de programas de pontos e aumento de receitas auxiliares em linhas prioritárias.
O modelo de companhias aéreas de baixo custo fica, assim, mais híbrido, com camadas de serviços que respondem a diferentes perfis e disposição a pagar.
Outra mudança citada é o ajuste de crescimento. Planos foram reduzidos, e redes passaram a refletir um ambiente de menor expansão e mais seletividade.
Há também movimentos de rota, com exploração de voos de longa distância e internacionais, sempre com cautela de custo por assento e fatores de ocupação.
Essas medidas marcam um desvio do desenho original, focado em simplicidade, alta utilização de aeronaves e uma oferta de serviços essencialmente enxuta.
O diagnóstico do banco aponta uma transição em curso. O objetivo é estabilizar margens e reconquistar o investidor após sucessivos trimestres desafiadores.
A dúvida, contudo, é quanto ao tempo e à efetividade, já que parte dos choques é estrutural e depende de oferta setorial e regras aeroportuárias.
O que observar em 2026
Na avaliação do banco, 2026 será um divisor. O período deve mostrar se a reconfiguração do modelo de companhias aéreas de baixo custo ganha tração.
Para o investidor, o recado é acompanhar margens, yield, eficiência operacional e a evolução dos programas de fidelidade nas principais low-cost.
O Morgan Stanley reforça que não projeta desempenho superior das low-cost frente às tradicionais. O foco está na estabilidade de resultados.
“O Morgan Stanley enfatizou que não está argumentando que as companhias de baixo custo entregarão crescimento ou lucratividade mais fortes do que as companhias aéreas tradicionais.”
A leitura central é de ponto de inflexão, com um calendário claro para medir o sucesso das mudanças e a redução do gap de avaliação.
“Em vez disso, afirmou que o setor está em um ponto de inflexão, com 2026 se configurando como um ano de teste para verificar se essas mudanças podem estabilizar os ganhos e reduzir as diferenças de avaliação.”
Se o plano funcionar, a confiança pode voltar, drenando parte do prêmio hoje concentrado nas companhias de rede com forte presença em hubs.
Em um cenário negativo, a consolidação de valor tende a se concentrar ainda mais nas tradicionais, com barreiras de custo e rede aparentemente duradouras.
Para Southwest e JetBlue, o escrutínio recai em como monetizar serviços premium, calibrar capacidade e reposicionar a marca sem perder simplicidade.
Para Frontier e Spirit, a viabilidade passa por disciplina de frota, recuperação de pontualidade e avanço em ancillaries que elevem a receita total.
O mercado, por sua vez, deve reforçar a seleção. Rotas com demanda corporativa e lazer premium seguem mais protegidas em ciclos de custo elevado.
Já rotas ultracompetitivas, com guerra de tarifas, tendem a exigir diferenciação tangível, sob risco de compressão adicional de margens.
Em síntese, o modelo de companhias aéreas de baixo custo está em revisão. A década que se abre testa resiliência e capacidade de adaptação.
Da estratégia de frota à experiência a bordo, a prioridade é capturar valor sem abandonar eficiência, o antigo pilar que sustentou o crescimento do segmento.
Nesse ambiente, a execução será determinante. O investidor olhará menos para promessas e mais para a tradução em lucro consistente e caixa robusto.
No curto prazo, a mensagem do relatório é pragmática. Ajustar preço, produto e rede é vital para atravessar um ciclo que deixou o setor mais complexo.
O pano de fundo de custos e a competição por hubs sugerem que a vantagem estrutural não voltará sozinha. Ela terá de ser reconquistada, passo a passo.
A conclusão, para já, é de prudência com ação. O espaço para surpresas positivas existe, mas depende de execução fina e disciplina de capital contínua.
Enquanto isso, a atenção recai sobre indicadores de 2025 e 2026, que indicarão se a curva de aprendizado das low-cost se traduz em rentabilidade sustentável.
Para o passageiro, a tendência é ver mais opções de serviços e tarifas combinadas, reflexo da busca por receita de qualidade e fidelização ampliada.
Para o setor, a nota do Morgan Stanley acende um alerta útil. Adaptar o modelo de companhias aéreas de baixo custo ao novo ciclo parece inevitável.