Setor que supervisiona US$ 18 trilhões enfrenta pressão de neo-corretoras, fragmentação de dados e custos, e vê o blockchain na aposentadoria como caminho para modernizar contas e benefícios

A indústria tradicional de aposentadoria nos Estados Unidos está diante de uma escolha estratégica, entre adaptar sua infraestrutura ou perder relevância para novas plataformas digitais.

Trata-se de modernizar processos, integrar dados e tornar benefícios portáteis, com foco em experiências centradas no usuário, e não mais apenas em arquivos e reconciliações manuais.

As conclusões surgem de entrevistas com participantes do mercado que supervisionam grandes volumes de ativos, conforme informação divulgada pelo Investing.com.

O alerta e os números que pesam

Conforme a reportagem, um dos setores mais conservadores das finanças globais, que supervisiona aproximadamente US$ 18 trilhões em ativos de aposentadoria nos EUA, está sendo forçado a repensar sua infraestrutura. A análise entrevistou 52 patrocinadores de planos de aposentadoria, administradores de registros e gestores de ativos dos EUA.

O diagnóstico é direto, e foi sintetizado por especialistas consultados no levantamento, com frases que resumem o impasse técnico e organizacional. Em especial, ficou claro que “Os problemas e desafios do sistema de aposentadoria hoje são quase impossíveis de resolver dentro da arquitetura atual, das restrições atuais e dos incentivos atuais do sistema”.

Esse cenário torna urgente discutir não só tecnologias isoladas, mas como remodelar a arquitetura de dados e a relação com o poupador, para reduzir custos e aumentar a portabilidade.

Três forças que tornam a mudança inevitável

A primeira força é competitiva. Neo-corretoras e fintechs ampliam seu alcance, oferecendo transferências, contas e experiências diretas ao usuário, e disputam o relacionamento que incumbentes sempre tiveram.

A segunda força é social e laboral. Mudanças no mercado de trabalho alteram a lógica de acumulação de benefícios. O relatório destaca que “O tempo médio que uma pessoa da Geração Z permanece em sua carreira é pouco mais de dois anos, versus oito anos e um quarto para um baby boomer, e o modelo de um único local de trabalho sendo o ponto focal para todas as suas decisões de poupança para aposentadoria e todas as suas decisões de benefícios não se sustenta mais da mesma forma”.

A terceira força é econômica. Manter processos manuais e sistemas fragmentados encarece cada personalização, cada transferência, cada reconciliação. Assim, a escala e a eficiência passam a depender de infraestrutura moderna.

Walletização na frente, tokenização depois

Um ponto-chave do debate é a ordem da transição. Em vez de partir direto para fundos tokenizados, a adoção tende a nascer da difusão de carteiras digitais como interface padrão de acesso a valor e serviços.

Na visão apresentada, a carteira digital se torna um software que pode manter e controlar valor tokenizado, e, portanto, “Se a carteira se tornar a maneira padrão de as pessoas manterem valor e acessarem serviços financeiros, então tudo existe no mesmo lugar e é controlado do mesmo lugar”.

A matéria cita dados de adoção, lembrando que “Aproximadamente um terço dos americanos com idade entre 25 e 35 anos já possui uma carteira de ativos digitais, enquanto cerca de um quarto daqueles com idade entre 35 e 45 anos também possui, de acordo com dados citados pela Franklin Templeton”.

Esse movimento faz com que a tokenização dos fundos seja vista mais como consequência natural do que como gatilho inicial, e explica por que o setor está buscando parcerias de infraestrutura em vez de produtos isolados.

Como blockchain pode coexistir com sistemas legados

A mudança não será de um dia para o outro, nem uma substituição absoluta. O caminho provável é em fases, conectando legados a novos componentes on-chain para resolver as ineficiências mais críticas.

Nos usos imediatos, a administração de benefícios aparece como campo fértil, porque regras e elegibilidades podem ser codificadas em registros digitais que se atualizam automaticamente quando um participante muda de emprego ou contribui.

Ao tokenizar direitos e regras, processos de reconciliação e de back-office podem ser automatizados, reduzindo risco operacional e custo, e tornando a experiência do participante mais fluida e portátil.

O que atrasa a adoção e sinais a monitorar

Apesar do potencial, barreiras importantes persistem. A maior não é a tecnologia, e sim a capacidade da indústria de realizar mudanças com segurança dentro de um sistema projetado para evitar erros.

A regulamentação adiciona atrito, porque produtos de aposentadoria são fortemente regulados, e há incerteza sobre como novas arquiteturas se encaixam nas regras de custódia, proteção ao consumidor e governança.

Por isso, o caminho sugerido inclui educação, diálogo regulatório e pilotos que conectem componentes on-chain aos sistemas existentes, para modernizar sem romper o que ainda funciona.

Para acompanhar a transição, vale observar três sinais práticos. Primeiro, a difusão de carteiras e a construção de trilhos que permitam pagar, investir e guardar em um mesmo lugar. Segundo, a expansão de neo-corretoras e neo-bancos na poupança de longo prazo, usando pilhas tecnológicas modernas. Terceiro, o surgimento de plataformas horizontais que reúnem investimentos, poupança, gastos, seguros e ativos digitais em ecossistemas conectados.

Como síntese, o alerta é simples e direto, e foi repetido na cobertura especializada: “Ficar parado não é mais uma opção”, e os incumbentes que não se moverem poderão perder a capacidade de moldar o próximo sistema, enquanto novas plataformas consolidam clientes e relacionamentos.

O roteiro traçado recomenda que provedores tradicionais priorizem parcerias estratégicas, provas de conceito e esforços conjuntos para integrar carteiras e registros digitais, equilibrando inovação, segurança e conformidade operacional.

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